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Humanismo

Eles todos são uns cretinos



DENIS R. BURGIERMAN para a NEXO

 

Não adianta disfarçar: eu sei muito bem que este título aqui em cima produziu em você pelo menos um pouco de satisfação.

 

As coisas vão mal, como sabemos. E, quando as coisas vão mal, não existe alívio mais eficaz do que colocar a culpa no outro. Tem sido assim há centenas de milhares de anos, desde a época em que os tataravós dos tataravós dos nossos tataravós, ao perceberem que a caça estava ficando difícil demais, juntavam a turma da caverna para dar um cacete nos da caverna ao lado. É um sistema bem bolado, até. O problema é que aquilo que serviu bem para nossos encardidos ancestrais não necessariamente vai funcionar direito na era do Facebook.

 

Sei bem do que estou falando. Trabalhei nos últimos anos na tal “indústria da mídia”, produzindo conteúdo aos montes para distribuir em massa 24/7 pelas redes sociais. Nesse período, aprendi uma coisa ou duas sobre a lógica da disseminação no “feice”. Para começo de conversa: cascata faz mais sucesso que ponderação, ou qualidade, ou mérito de qualquer tipo. Quase todos os maiores hits que vi acontecer continham alguma imprecisão inflamatória. Nas redes sociais, nenhuma festa atrai tanta gente animada quanto um linchamento. Numa era de frustração generalizada, nada provê tantos “likes” quanto uma explosão de raiva. (Aliás, estou bem seguro de que, com este título que coloquei aí em cima, este meu texto vai bombar no Facebook).

 

Isso tem explicação na nossa origem evolutiva. Ao longo de milhares de gerações, a mente humana foi desenvolvendo a capacidade de criar profundos laços de lealdade com aqueles com os quais se constrói familiaridade – os “nossos”, que amamos, e por quem estamos dispostos a dar a vida, ou quase, não importando seus defeitos.

 

Por outro lado, somos dotados também de um poderoso mecanismo cerebral que nos torna capazes de enxergar o tal “outro” como uma coisa desprezível que precisa ser exterminada. Algumas pesquisas interessantíssimas feitas nos anos 1970 – e nunca repetidas depois por causa dos óbvios problemas éticos envolvidos – mostram como quase todos nós, por mais que nos consideremos pessoas boas e compassivas, somos capazes de torturar alguém ou de desejar sua morte, depois de passar por um processo de “desumanização”, que é deixar de ver o outro como um indivíduo digno de consideração moral. O primeiro passo para desumanizar alguém é colar nele um rótulo (petralha, coxinha, bandido, feminazi, machinho, evangélico, judeu, bandido, maconheiro, preto, fascista, favelado e infinitos etcs.). Pronto, para o nosso cérebro, já não é mais uma pessoa: é parte de um coletivo monstruoso.

 

Nada disso é novidade. Nós humanos sempre funcionamos assim e, de tempos em tempos, “dá ruim”, como dizem. Novidade é esse fluxo constante de imagens que as redes sociais colocam à frente de bilhões de pessoas, dando a elas a ilusão de proximidade com gente ao redor do mundo todo. Semana passada, o neurocientista Robert Sapolsky publicou na revista digital “Nautilus” um artigo sobre como os mecanismos cerebrais de construção de familiaridade, fundamentais para a vida em sociedade, parecem estar sendo confundidos pelo superestímulo que o Facebook proporciona. Subitamente, bilhões de mentes humanas estão separando o mundo inteiro entre amigos íntimos – de quem toleramos tudo e amamos incondicionalmente – e inimigos mortais – que não estamos dispostos a sequer ouvir e queremos ver esmagados. Só isso explica como óbvios crápulas não apenas são tolerados, mas viram líderes.

 

É que, nesse ambiente, quem se destaca não são as pessoas mais capazes, nem as mais inteligentes, nem as que têm as melhores ideias, muito menos as mais ponderadas: são aquelas capazes das maiores infâmias contra os nossos inimigos. Os mais furiosos. Os que melhor expressam nossa indignação.

 

O mais assustador é perceber que essa nova lógica parece estar afetando bem mais do que a mídia – tudo no mundo cada vez mais é regido por ela. Inclusive as escolhas mais importantes da nossa sociedade. Algo muito esquisito tem acontecido com os sistemas de tomada de decisão no mundo todo. Pegue como exemplos as grandes surpresas eleitorais dos últimos tempos – Brexit, tratado de paz na Colômbia, Trump. Em todos esses casos, as pesquisas eleitorais apontavam que a maioria preferia o caminho mais ponderado e racional. Em todos eles, houve uma chocante virada na última hora, contra todos os prognósticos e a opinião dos especialistas.

 

Essas histórias têm sido vistas como “erros nas pesquisas”. Mas será que foi isso mesmo? Nessas três eleições, disputadas em continentes diferentes, o “engajamento” nas redes sociais previu o resultado melhor do que as pesquisas – ganhou quem tinha mais “likes”, não as políticas mais aprovadas ou a maior taxa de intenção de votos. Será que isso não pode ter a ver com o fato de que, embora nossa mente racional, quando perguntada, responda racionalmente, temos decidido mesmo é com o cérebro primitivo, que obedece apenas à lógica que divide o mundo entre “nós” e os “outros”?

 

O problema é que, nesta humanidade cada vez mais interconectada e complexa, meio que não existem mais os “outros”. Nossos destinos na Terra estão cada vez mais interligados. Escolher sempre pela destruição do inimigo quase certamente irá significar um futuro sombrio para todos nós. Nos dois lados de cada briga, os mais agressivos e raivosos ganham cada vez mais espaço e poder. Me dá calafrios imaginar aonde esse ciclo vicioso pode nos levar.

 

É com essas preocupações na cabeça que estreio hoje esta coluna semanal aqui no Nexo, um projeto massa ao qual tenho orgulho de me juntar. Meu plano é vir aqui toda sexta-feira para tentar lançar um olhar mais sistêmico e complexo sobre este momento difícil que o mundo está vivendo. Afinal, é tentador acreditar que estamos neste fundo de poço simplesmente porque os outros são uns cretinos, e que a culpa é toda deles. Claro que não há falta de cretinos por aí, mas a questão não é essa: a questão é por que diabos nossa civilização está constantemente escolhendo errado. Não se trata de encontrar culpados, mas de pensar em jeitos de mudar a forma como fazemos as coisas. Tudo indica que o problema não é dos “outros”: é do sistema todo, e diz respeito a cada um de nós.

 

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010. Escreve sobre a vida e suas complexidades.

Postado por Jorge Espeschit em 20/11/2016

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