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Patrimônio Histórico e Cultural

Pesquisa investiga presença italiana nas ruas da capital mineira



Os jovens que hoje frequentam a Praça da Savassi, a Igreja de Lourdes e o Parque Municipal talvez não imaginem que por trás da história da construção desses locais existe uma forte participação italiana. É o que comprovam as 183 ruas que receberam nomes de homens e mulheres que vieram da “terra da pizza” para erguer a nova capital de Minas Gerais e que foram tema de estudo da pesquisadora Zuleide Filgueiras.
     
     Detalhe: Zuleide não é especialista em estudos urbanos. Sua pesquisa foi apresentada como dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos no início de abril. Ela conta que estava em busca de tema para a dissertação sobre toponímia urbana, quando, caminhando pelas ruas da cidade, em especial do bairro Caiçara, onde morou, notou que várias placas registravam antropotopônimos – nomes de lugares motivados por nomes de pessoas – de origem italiana.
     
     Para chegar aos 183 antropotopônimos, Zuleide lançou mão do mapa oficial do município, desenvolvido pela Prodabel, que contém os mais de 14 mil logradouros da cidade. Em sua seleção, ela excluiu os que não tinham nomes de pessoas ou que pertenciam a outra nacionalidade. Entretanto, seria preciso ainda comprovar que os “italianos” do mapeamento eram de fato italianos, não somente herdeiros do sobrenome de um cônjuge.
     
     Para confirmar a origem, a pesquisadora recorreu à ajuda de italianos natos, entrevistou familiares dos homenageados, consultou os cadastros de imigrantes dos portos de Santos, Rio de Janeiro e Espírito Santo, analisou dados da Hospedaria Horta Barbosa – que funcionava em Juiz de Fora e acolhia estrangeiros que desembarcavam no litoral e tinham Minas Gerais como destino – e realizou pesquisa histórica nos arquivos, museus e Cemitério do Bonfim. Para confirmar as grafias das placas dos logradouros, visitou cada um dos possíveis antropotopônimos. “Até em beco eu fui”, brinca ela, numa referência ao Beco Natali, no bairro Novo Glória.
     
     Polivalentes
     Com a abolição da escravatura em 1888 e o prazo de quatro anos para finalizar a construção de Belo Horizonte (de 1893 a 1897), a saída foi recorrer à mão de obra estrangeira, e a Itália, imersa em grave crise econômica, se transformou em centro fornecedor de trabalhadores. Entre as obras que os europeus ajudaram a erguer, destacam-se a Santa Casa, o Palácio da Liberdade e o Edifício Maletta (reformado e transformado em hotel por Arcângelo Maletta).
     
     A pesquisa de Zuleide apontou outro dado interessante: os construtores eram “polivalentes”. Cada um exercia, pelo menos, três atividades, entre elas algum ofício relacionado à arte. Conversando com familiares, ela conheceu histórias como a de Alfredo Guzella (cujo antropotopônimo está localizado no bairro Planalto), dentista, médico, farmacêutico prático e calceteiro – responsável pelo assentamento dos paralelepípedos da Praça da Liberdade –, Walter Ianni (bairro São Gabriel), dono de fábrica de móveis e luthier de violinos, e Igino Bonfioli (bairro Jaraguá), registrado como mecânico ajustador, fabricante de cigarros, tipógrafo, vidraceiro e cineasta – ele dirigiu o primeiro filme rodado na jovem capital mineira, A canção da primavera, de 1923.
     
     O interesse pelo futebol também deu notoriedade aos imigrantes: vinte e um deles foram fundadores, dirigentes ou jogadores do Palestra Itália, atual Cruzeiro Esporte Clube, como Afonso Ricaldoni (Castelo), Attílio Turci (Caiçara), Felício Brandi (Bandeirantes), Miguel Perrela (Castelo), entre outros.
     
     Dicionário
     Animada com os resultados do estudo, Zuleide pretende dar continuidade ao trabalho. “Quero elaborar um dicionário biográfico dos imigrantes”, revela. Para divulgação dos dados em Minas e na Itália, ela produzirá, em parceria com a professora Sônia Queiroz, da Faculdade de Letras, um livreto bilíngue com curiosidades sobre o passado histórico de Belo Horizonte.
     
     Italianos da ‘gema’
     Conheça breves perfis de alguns italianos que deixaram sua marca em Belo Horizonte:
     • Victor Purri (Santa Cruz) – Dono de fundição inaugurada em 1903, fabricou quase todos os bueiros e bocas de lobo da nascente capital. Até hoje é possível encontrar o sobrenome Purri em alguns bueiros.
     • Arcângelo Maletta (praça do bairro Santa Lúcia) e Felício Rocho (Santa Cruz) – Dois importantes hoteleiros da cidade. O primeiro era dono do Grande Hotel (onde fica o Edifício Maletta) e o segundo, proprietário do Hotel Internacional, atualmente conhecido como Hotel Itatiaia.
     • Raffaelo Berti (Mangabeiras) – Arquiteto, assinou os prédios da Prefeitura de Belo Horizonte, da Santa Casa de Misericórdia, do Hospital Odilon Behrens, da sede social do Minas Tênis Clube e do Hospital Felício Rocho.
     • Família Natali (Novo Glória) – Dona de marmoraria que forneceu quase todo o mármore utilizado no Cemitério do Bonfim, no Palácio da Justiça e no Palácio da Liberdade.
     • Alfredo Balena (Santa Efigênia) – Foi um dos fundadores, em 1911, da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, hoje Faculdade de Medicina da UFMG.
     
     SERVIÇO:
     Dissertação: A presença italiana em nomes de ruas de Belo Horizonte: passado e presente
     Autora: Zuleide Ferreira Filgueiras
     Defesa: 4 de abril
     Programa: Pós-graduação em Estudos Linguísticos, da Faculdade de Letras
     Orientadora: Maria Cândida Trindade Costa de Seabra
     
     (Boletim UFMG, edição 1736)

Postado por Jorge Espeschit em 07/05/2011

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17 Comentários para "Pesquisa investiga presença italiana nas ruas da capital mineira"

  1. Carlos Nascimento 11/09/2013

    Poderiam me informar se esta pesquisa está tendo continuidade? Sou de Belo Horizonte, atualmente vivo no Rio de Janeiro, mas tenho muitos registros do meu falecido avô para compartilhar com a pesquisadora, caso ela se interesse. Obrigado. Carlos Nascimento Scalabrini

  2. Mauro da Luz 15/05/2012

    Acabei de ler uma entrevista, desta mesma pesquisadora da UFMG, na Revista Oficial do Cruzeiro. Está na edição maio/2012. Ela mostra as ruas cruzeirenses de Belo Horizonte. Trabalho muito rico. Parabéns.

  3. Ana Gualberto 22/02/2012

    Que máximo! Isso tinha que ser divulgado. Moro na Rua victor Purri e nem sabia quem era essa pessoa. Adorei.

  4. Cláudia Sabino Cruz 19/12/2011

    Pesquisa fantástica. Muito boa mesmo. Alguém saberia me dizer onde consigo uma cópia? Obrigada.

  5. Aroldo Verscianni 10/12/2011

    Esse trabalho já está publicado? Muito interessante, gostaria de ler.

  6. Carlos Adriano Reis 15/10/2011

    Parabenizo pelo trabalho. Pela magnitude, extensão e profundidade da pesquisa não imaginei que fosse apenas uma dissertação de mestrado. Pensei que se tratava de uma tese de doutorado. Sendo assim, a pesquisadora, com absoluta certeza, está pronta para estudos de alta complexidade! Carlos Itajubá - MG

  7. Ana Maria 29/09/2011

    Adorei a pesquisa.

  8. Ricardo Antunes 20/09/2011

    Fiquei positivamente surpreso com essa pesquisa. Os nomes das ruas podem contar a história da cidade. Fantástico trabalho! Ricardo Andtunes Brasília

  9. Maria da Penha de Assis 25/08/2011

    Muito boa essa pesquisa. Também gostaria de ver o texto completo. Alguém poderia me ajudar a conseguí-lo? Sou professora de História e gostaria de trabalhar o tema com os meus alunos. Será que a Zuleide Filgueiras poderia fazer uma palestra na escola onde leciono? Muito obrigada! Maria da Penha de Assis Bairro de Lourdes - Belo Horizonte

  10. Elenora Xavier Guinotti 10/08/2011

    A iniciativa é singular. A pesquisa foi muito bem feita. Gostaria apenas de sugerir à pesquisadora que continuasse esse trabalho alcançando nomes que, infelizmente, foram totalmente esquecidos da memória da cidade. Se a pesquisadora puder me procurar, tenho vários relatos e documentos sobre famílias italinas, incluindo a minha, que deram seu sangue e suor para ver essa cidade erguida. Deixo o meu e-mail de contato: eleonora,guinotti@yahoo.com.br No mais, só tenho a agradecê-la por ajudar a manter viva a nossa gente italiana na memória de Belo Horizonte.

  11. Tarcísio dos Reis Vieira 03/08/2011

    Exelente trabalho e muito importante,para o resgate de nomes de pessoas importantes, que muito fizeram por nossa Belo Horizonte. Gostaria apenas de disser que o nome de Walter Ianni, muito orgulho trouxe aos parentes,mas também é importante lembrar do Vicente Giuseppe Ianni, que deu início a fábrica de móveis Ianni e capacitou seu competente sobrinho, Walter.Mais tarde, passou o comando da fábrica, para seu sobrinho, mas não o abanou, continuando o seu trabalho: fabricando móveis de grande qualidade, até os últimos dias de sua vida.

  12. Claúdio Lorenzatto 02/08/2011

    Pesquisa muito interessante. Parabéns pelo trabalho. Gostaria de ver a íntrega dos dados. Como posso fazer isso? Agradeço, antecipadamente, pela atenção. Cláudio Lorenzatto Belo Horizonte / Cidade Nova

  13. Marlene Rocha 21/07/2011

    Meu marido é de origem italiana. Pertence à família Baggetti. Ficamos emocionados com essa pesquisa porque encontramos informações sobre um antepassado dele. Hélio Baggetti, cuja rua encontra-se no Bairro Planalto, é citado pela pesquisadora Zuleide Filgueiras.Morreu jovem, com apenas 17 anos, em um acidente trágico na Avenida Antônio Carlos. Era remador do Iate Golfe Clube de Minas Gerais. Agradecemos, de todo coração, à Zuleide Filgueiras, por esse presente. Que Deus à abençõe. Marlene Rocha Baggetti Lourdes - Belo Horizonte

  14. Agenor Ciscotto 07/07/2011

    Com sinceridade, parabenizo a pesquisadora. Trabalho magnífico. Consegui a cópia e fiquei maravilhado com a riqueza de dados.Excelente! Agenor Ciscotto Pampulha - BH

  15. Claudio 30/06/2011

    Bela iniciativa. A minha cidade, São Paulo, também sofreu forte influência italiana. Temos, inclusive, o Bixiga, um bairro formado por imigrantes italianos. Todavia, não conheço um trabalho, como o de Zuleide Filgueiras, aqui em São Paulo. Quem sabe, depois dela, alguma pesquisa semelhante seja feita aqui e em outros municípios. Sabemos que devemos muito ao povo italiano e nada mais justo redescobrir a sua memória nos nomes de nossas ruas. Cláudio Albuquerque São Paulo - Capital

  16. Alcione Carvalho 05/06/2011

    Excelente trabalho de mestrado. Originalidade e tema bastante interessante. Parabéns, Zuleide Filgueiras. Essa história merece ser divulgada e você ousou fazer isso. Alcione Carvalho - Prado - Belo Horizonte

  17. Otávio Mesquita Lunardi 03/06/2011

    Gostaria de parabenizar a pesquisadora Zuleide Filgueiras, da UFMG, pelo desenvolvimento de uma pesquisa tão interessante. Recuperar a história de uma cidade por meio do nome de ruas e praças é algo que supreende a todos que, normalmente, passam pelas vias e nem imaginam que, certas placas, guardam nomes de pessoas que realmente fizeram algo importante para a cidade. Sou descendente de italianos. Consegui gravar uma cópia da dissertação de Zuleide Filgueiras e me emocionei ao encontrar 4 logradouros com nomes da família Lunardi. Meus antepassados se dedicaram muito pelo progresso de Belo Horizonte e isso é motivo de orgulho para a minha família. Poucos sabem o quanto os italianos fizeram por Belo Horizonte e essa pesquisa relaciona 183 nomes. Muitos foram operários, injustamente relegados ao desconhecimento. A pesquisadora teve o mereto de retirá-los do anonimato, nos ofertando informacões primárias (recolhidas junto aos descendentes dos mesmos)e nos fez conhecer capítulos da história de Belo Horizonte, muito pouco conhecidos. Fiquei mesmo muito feliz e gratificado ao ler a dissertação dessa jovem pesquisadora. Trabalho original e digno de publicação. Parabéns! Otávio Mesquita Lunardi Bairro de Lourdes / BH - MG

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