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Moradores transformam quarteirão em ponto de encontro


Moradores transformam quarteirão em ponto de encontro

Estado de Minas - Arnaldo Viana

A lógica pode explicar o comportamento social, mas não se pode medir com uma régua o que ocorre todas as semanas na Rua Norita, no Bairro Santa Tereza, Região Leste de Belo Horizonte. De repente, as pessoas vencem o medo de si mesmas, do mundo lá fora. Rompem as barreiras da desconfiança, se despem do medo, ultrapassam muros e grades e descobrem que têm algo em comum: a vontade de viver, de conviver e de ser feliz.

Essa história começa com Lincoln e Déa, um casal que não chegou à Rua Norita impunemente. Ele, aposentado como funcionário administrativo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), abriu uma copiadora na garagem de casa. Cobrava R$ 0,10 a cópia. “Não pagava nem a manutenção das máquinas.” Mas a lojinha era âncora da necessidade de Lincoln de conviver, conhecer pessoas, trocar um dedo de prosa. Melhor ainda para Déa, vítima, há quase 20 anos, de um acidente vascular cerebral. Ela perdeu os movimentos das pernas, um pouco da fala, mas não o sentido da vida

O casal realizava no pequeno comércio o desejo de estar em contato com o mundo e de ser, de alguma forma, útil, mas às vezes há uma armadilha no caminho. “Um dia, não aguentei. Tanto prejuízo…Vendi as máquinas e acabei com a copiadora.” Tudo mudou. Para se relacionar com Santa Tereza restaram a Lincoln e a Déa duas cadeiras diante da garagem. Pelo menos até o entardecer, porque a noite, em BH, pode ser perigosa. Um bom-dia de um vizinho, um boa-tarde de outro. Muito pouco, comparado ao movimento da lojinha.

Uma tarde, a Lígia parou para uma curta conversa com o casal. Curta nada, porque depois chegou a Delma. Nos dias seguintes, Milton, Arlene, Vitor, Sônia, Nair e outros. Mas por que não reunir todos? E assim se fez. A Rua Norita elegeu a segunda-feira como o dia dos encontros na garagem de Lincoln. Uma traz um salgado, outro a cerveja. Só? Não! Lídio apareceu com um acordeom, José Geraldo com um violão e outr o José com o bandolim. Bom? Ainda não. Neli com o atabaque, Elisa com o apoché e Roberto com o pandeiro, Eliane com a flauta…

A música, de seresta a bolero, tomou conta da Rua Norita nas noites de segunda-feira. Alguém reclamou ou reclama do barulho? Não, todos estão lá. “É muito melhor do que ficar enfiada dentro de casa”, diz Fátima, antes de tirar alguém para dançar Fio de cabelo, composiçã o de Marciano e Darci Rossi, gravada e regravada por quase todos os astros sertanejos.

Mas alguém demorou a entrar. E mora bem do lado. É Nair. Com seus infinitos olhos azuis, ficava atrás das grades, vendo o sentido da coexistência renascer na alma dos vizinhos. Um dia, jogou fora seus medos, abriu o portão e entrou na roda. “Ficava fazendo tricô ou na sala assistindo a um filme. Aqui, a gente fica feliz .” Já para Déa, feliz é pouco. Na cadeira, ela acompanha o ritmo dos amigos e, timidamente, diz: “Minha emoção é esta”.

Mas isso de pessoas reunidas, em dia marcado, dividindo emoções, comida, carinho e sonhos não é uma confraria? É. A Confraria São Gonçalo. Está na placa vertical, na porta da garagem de Lincoln. Por que o português São Gonçalo? Porque ele, protetor das mulheres, gostava de música. Andava com uma viola a tiracolo e é padroeiro dos violeiros

A cada semana a confraria homenageia alguém da música. Outro dia foi o Acir Antão, pesquisador e entendedor da MPB. Segunda-feira foi a vez de Waldir Silva, mestre do cavaquinho. Com mais de 60 anos de carreira e 80 de idade, ele ergueu o troféu, uma pequena imagem de São Gonçalo, como um garoto exibe, orgulhoso, uma desejada barra de ch ocolate. E, como não poderia deixar de ser, agradeceu tocando um de seus sucessos.

Postado por Jorge Espeschit em 24/07/2011

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