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Uma certa Belo Horizonte‏



AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA 

 
Não sei se é porque Fabrício Marques me disse que está fazendo um livro sobre Belo Horizonte e seus intelectuais; ou se é porque morreu o meu amigo, o cientista político Amaury Souza, que conheci no bandejão na Faculdade de Ciências Econômicas nos anos 1960. O fato é que a Belo Horizonte de ontem ficou irriquieta em minha memória. E, ao saber que Tônia Carrero completou 90 anos, revejo-a com uns amigos junto ao Teatro Francisco Nunes, cantando com Paulo Autran: “Quéqueocê foi fazê no mato, Maria Chiquinha?”. Nesse teatro também vi Turíbio Santos. Fizemos juntos alguns espetáculos de poesia e violão, e agora neste domingo (não percam!) a Rádio MEC apresenta, às 12h, o 20º programa com ele e seus concertos.

Quantas Belo Horizontes existem? 

Lembro-me agora de uma delas. Entre 1958 e 1962. Estou indo almoçar no bandejão das Ciências Econômicas. Cada almoço ou jantar, cada conversa na portaria do prédio era um seminário, uma conspiração. A revolução social estava batendo, arrombando a porta. Jânio e Jango. Reforma agrária, reforma urbana. Ligas camponesas. Diretor de cultura, primeiro do diretório da Fafi, depois do DCE e da UEE, cheguei a fundar com outros o Centro Popular de Cultura, ligado à UNE. 

Mas o fato é que ia comer no bandejão da Faculdade de Ciências Econômicas e ali estava se formando uma notável geração de cientistas políticos e administradores. Era tudo novo. Os professores em tempo integral e em amplos escritórios. Os alunos ganhavam bolsa para estudar. Eu morria de inveja. Frequentava a Faculdade de Letras (ainda no Acaiaca) e trabalhava no Banco do Comércio Varejista. Eu me dava com alguns dos professores das Ciências Econômicas que tinham viés literário: Fábio Lucas, Francisco Iglésias, Emílio Moura, Júlio Barbosa. No entanto, tramava o futuro meu e do Brasil com Betinho, Bolivar Lamounier, Amaury Souza, Simon Schwartmam, Cláudio Moura Castro, José Murilo de Carvalho, Ivan Otero, Luis F. Victor, Antônio Otávio Cintra, Fábio Guilherme Reis, Paulo Haddad, Edmar Bacha, Paulo Paiva, Juarez de Brito e Maria do Carmo, Teotônio Jr., Vânia e Vinícius Caldeira Brant (presidente da UNE). Como disse noutra crônica, até a presidente Dilma foi, mais tarde, aluna aí.

Falava-se muito de George Gurvitch naquele tempo…

Quem vai escrever a história dessa geração? Eu não posso. Sou um periférico. Periférico que testemunhava o que ocorria ao mesmo tempo com o Madrigal Renascentista, com o grupo do Klauss Viana, com o Teatro Experimental, com o Teatro Universitário, com o Centro de Estudos Cinematográficos, com os da Escolinha Guignard e com a geracão Complemento. Ser periférico (vir de Juiz de Fora) me possibilitava, paradoxalmente, estar por dentro de tudo isto. 

Ali estava se formando uma geração mais do que literária. Na ciência política, na música, no teatro, no jornalismo etc. Isso era bem diferente dos modernistas ao tempo de Drummond, diferente da geração de Fernando Sabino. Essa interdisciplinaridade merecia ser estudada. Tentei descrever rapidamente essa diversidade dando mais nomes e fatos, num texto de 1980: “É isso aí, companheiro”(Política e paixão, Editora Rocco), quando comentei aquele livro do Gabeira, que então fazia muito sucesso. 

Volto à Faculdade de Ciências Econômicas daquele tempo. Estou conversando com Juarez de Brito depois do jantar. Ele não sabia que seria o braço direito de Lamarca e morreria metralhado no Rio. Por mim passa o diretor da faculdade, Ivon Magalhães Pinto, que criou, pioneiramente, uma instituicão invejável no país, de onde sairiam grandes personalidades. Mas o mundo é cheio de injustiças e equívocos. Os alunos fizeram greve contra ele. Eu vi o caixão simbólico onde os estudante o enterraram. Pouco depois ele morreria de fato, não sei se de desgosto. Mas sua obra ficou. E isto merece ser melhor contado. 

ESTADO DE MINAS
26/08/2012

Postado por Jorge Espeschit em 26/08/2012

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