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Humanismo

A lógica da Vida


A lógica da Vida

Leandro Carvalho 

     

Não passou despercebido, certamente, que nos últimos sessenta anos os seres humanos pusemos abaixo com nossas mãos um paradigma que já durava centenas de milhares de anos. Deixamos de ser uma atividade biológica distinta em sua condição pela capacidade de interação social consciente, para nos inscrevermos entre os mais poderosos eventos que já passaram pelo palco de Gaia. Promovemos uma virada tecnológica sem qualquer precedente conhecido, através de uma certa quantidade de mudanças, realizadas dentro e fora da órbita do planeta Terra, de tal proporção e com tal velocidade que apenas as forças mais avassaladoras da natureza tinham demonstrado, até então, poder suficiente para realizar. Demonstramos, através do nível de sofisticação que alcançamos, que somos uma variável muito importante no delicado sistema de equilíbrio físico-químico-biológico do planeta.

Evidentemente uma constatação como esta nos deixa envaidecidos!

Traz-nos um sentimento de conforto!

E...

Torna-nos inevitavelmente responsáveis. É que são muitas as possibilidades que se abrem a partir de tal poder. Sua utilização, mesmo na menor medida – aquela do cotidiano – deve obedecer a uma certa ordem, uma certa lógica, a mesma que regula tudo o mais no universo: a lógica da vida, entendida como a geradora de um conjunto de situações que favorecem, incentivam e criam numerosas possibilidades para o surgimento, a proliferação e a manutenção da vida no seu estado mais pleno. Se nos esquecermos desta lógica, não poderemos gozar dos seus benefícios. A manutenção da vida em condições ideais de desenvolvimento é algo muito tênue, está à mercê de nossa vontade, e devemos nos responsabilizar por isso.

Leonardo Boff, no recente artigo Os limites do capital são os limites da Terra, enumerou quatro grandes crises pelas quais passamos enquanto sistema planetário: duas são estruturais (energética e climática), e duas conjunturais (econômica e alimentar). A solução das crises estruturais tem precedência cronológica, mas a solução de todas elas, de todo modo, deve ser integrada, sob pena de insucesso ou mesmo de retrocesso.

A permanência dos seres humanos no intrincado conjunto Gaia está condicionada à nossa capacidade de solução destas grandes crises. Estou convicto de que a solução passa pela reconsideração necessária e urgente daquilo que entendemos e denominamos solidariedade.

A forma social do ocidente contemporâneo oferece um modelo de compreensão de solidariedade personalista, do tipo “faço minha parte”, de fundamento claramente passional, estruturalmente desorganizado[1], e que se presta somente a manter, tal como são, as relações sociais como um todo. Nele, o objeto privilegiado da solidariedade será a situação que reúna algumas características particulares: está distante o suficiente para não oferecer risco algum ao solidário; oferece retorno econômico ou algum outro tipo de oportunidade (marketing pessoal, nicho de mercado, novos consumidores, mão-de-obra, poder militar etc); deixa sempre muito claro para quem precisa quem é que está “ajudando”, o que cria um vínculo vertical de dependência.

A solidariedade de que precisamos segue para outro lado. Como Gaia, permite crescer e ao mesmo tempo exige respeito ao limite. Promove a simbiose das diferenças para a multiplicação das potencialidades, a síntese entre fortes e fracos para que todos possam, o que a torna uma prática essencialmente coletiva. Tem os mais nobres sentimentos humanos como alicerce, e os mais nobres produtos da razão como coluna.

Enfim, é muito pouco estender a mão, e é muito vago ser globalmente solidário, se a humanidade não concordar em seguir radicalmente a lógica da Vida. Porque estamos lidando, no nosso tempo, com o desafio mais sério e decisivo que já foi apresentado à nossa espécie: o desafio de escolher – e arcar definitivamente com as conseqüências desta escolha – entre perpetuar nossa existência segundo esta lógica, ou permitir que a Mãe Terra continue seu processo evolutivo sem a nossa presença, que em última análise não é absolutamente necessária.

 

(Dedico esta reflexão à Rose, com os meus parabéns pela sua mais recente conquista)

 


[1] Espero que não se confunda a desordem estrutural a que me refiro com ausência de institucionalidade. Tal compreensão pequena da solidariedade está presente tanto em atitudes individuais como em políticas de estado.

 

Postado por Leandro Carvalho Silva em 04/03/2009

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4 Comentários para "A lógica da Vida"

  1. Romildo Junior 16/05/2009

    O texto é instigador. É uma "intimação" a quebrar a linha da ação instimista e isolada através de uma sensibilidade solidária.

  2. Romildo Junior 16/05/2009

    O texto é instigador. É uma "intimação" a quebrar a linha da ação instimista e isolada através de uma sensibilidade solidária.

  3. Cidlene Castro 02/04/2009

    É forte pensar esta realidade. O barulho que faz no mundo não nos educa a ouvir o apelo da vida. Obrigada Leandro pelo alerta do desafio nosso de fazer a escolha certa: A VIDA. Eu escolha a vida tb.

  4. Maria Goretti Nunes Gomes 06/03/2009

    O texto do Leandro Carvalho é bastante elucidativo e extremamente assustador. É algo tão real e sério que da medo de pensar, mas, ao mesmo tempo vontade de agir, se não a terra estará brevimente desabitada. Goretti Gomes

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