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Direito à Cidade

As 'cidades precisam de espaços de encontro”, diz arquiteto



O que faz com que Harvard tenha tantos ganhadores de Prêmios Nobel? Não são laboratórios ultratecnológicos e nem os melhores professores. “É a alta concentração de boas cafeterias”, diz o arquiteto David Sim. Para ele, São Paulo precisa criar pontos de encontro para seus moradores. O arquiteto escocês já esteve várias vezes na cidade e tem uma parceria com a Prefeitura para dar novos usos aos espaços públicos no Centro da cidade.

 

O que é uma cidade boa para as pessoas?
Mesmo prédios de alta qualidade, bem desenhados, com tecnologias modernas se mostram não funcionais. Sempre falamos sobre a “síndrome de Brasília”. É uma cidade espetacular, com uma arquitetura monumental e prédios icônicos. Mas se você realmente vive em Brasília e quiser andar, sabe que a vida cotidiana não é tão espetacular assim. Se você sobrevoa Brasília em um helicóptero é impossível não ficar de queixo caído, mas há um outro lado da arquitetura do dia-a-dia, cruzar a rua, ir à escola, chegar ao trabalho, comprar mantimentos. Estamos muito interessados nesse lado da arquitetura.

Copenhague nos últimos 40 anos desenvolveu-se baseada em um grande esforço de ser uma cidade habitável, sociável, olhando mais para o dia-a-dia das pessoas do que para o lado monumental. Isso é tão básico. Tornou-se um lugar onde as pessoas são capazes de ir à escola e ao trabalho caminhando, pedalando ou de transporte público. E o mais importante de tudo, preocupou-se com os espaços públicos. Seguiram as três regras do “bem estar”: localização, localização e localização.

O que você quer dizer com localização?
É sobre vizinhos, é sobre espaços públicos e ruas. Há uma forte conexão entre bem estar e ter bons espaços públicos, limpos, seguros e civilizados. Tudo aquilo que achamos que é bom para as pessoas é bom para a economia das cidades. Você não pode ter uma economia forte se os trabalhadores da cidade não estão vivendo bem.
 

Projeto temporário na Times Square, em Nova York, da Gehl Architects (Foto: Gehl Architects)

É esse o problema de São Paulo?
Em São Paulo, um dos principais desafios é que o cotidiano é muito difícil. É difícil caminhar, os espaços públicos não são atrativos, o transporte é baseado em carros. Precisamos encontrar outras soluções. As principais medidas são tornar os lugares caminháveis, pedaláveis e melhorar o transporte público. Se você vai esperar pelo ônibus, precisa ser em um lugar agradável. Uma das razões pelas quais as pessoas não pegam ônibus é porque os terminais costumam ser lugares terríveis e inseguros. São Paulo é incrível porque é dinâmica, criativa, vibrante e empreendedora. Mas precisamos construir espaços melhores para essas pessoas. Precisamos construir espaços para elas se encontrarem.

Você já esteve algumas vezes em São Paulo, consegue fazer um diagnóstico da cidade?
Minha primeira vez em São Paulo foi há seis anos. Pensei “Brasil: café”. Imaginei que encontraria cafeterias nas calçadas a cada esquina. Vocês têm o melhor café, o tempo bom e pessoas simpáticas. E foi tão difícil achar uma cafeteria com mesas na rua. É sintomático. Nós pesquisamos por que Harvard tem tantos ganhadores de Prêmio Nobel. Não é porque tem os melhores laboratórios e professores, mas porque tem uma alta concentração de boas cafeterias. As pessoas vão almoçar ou tomar um café e se encontram. São pessoas de diferentes áreas, pessoas criativas encontram pessoas com dinheiro. Psicólogos encontram arquitetos, é assim que se consegue energia criativa. Por isso precisamos de mais pontos de encontro. Se só encontramos as pessoas em clubes vão ser pessoas iguais a nós.

O próximo desafio para São Paulo é a mobilidade. As pessoas perdem muito tempo paradas no tráfego. Todo mundo tem 24 horas, ricos e pobres. E se você fica parado 3 horas por dia, dorme 8 horas, trabalha 8 horas, tem cerca de 5 horas para cuidar de toda a sua vida, arrumar a casa, namorar, sair, se divertir, ficar com os filhos – as coisas realmente importantes. Ficar parado no trânsito faz com que você perca o tempo mais valioso da vida.

Terceiro ponto é a saúde. Saúde pública é um dos maiores gastos para governos de países democráticos. Sentar-se em um carro é uma das piores coisas que você pode fazer para seu corpo. Poluição também. Os médicos concordam sobre os pilares da saúde física e mental: ar fresco, exercícios e encontrar pessoas. Não importa quão ruim seja o ar externo, ele será sempre melhor que o interno. Exercícios porque somos animais feitos para o movimento. E, por último, encontrar outras pessoas porque o ser humano é social. As novelas são interessantes por isso, as pessoas amam paixões e intrigas. É completamente antinatural ficar sentado o dia todo na frente de um computador, em um apartamento pequeno, com famílias pequenas. Se pudermos oferecer ar fresco, exercícios e encontros, iremos ajudar a sociedade a ser mais saudável, feliz e prevenir doenças. O ministro da saúde da Escócia está considerando retirar uma parte do dinheiro da saúde para investir em espaços públicos.

Que medidas práticas podemos tomar em São Paulo?
Há um grande potencial no Cento com tantos prédios vazios. Não podemos forçar ninguém a viver lá. Temos que fazer convites para bons espaços públicos. Para sentar-se fora dos apartamentos com amigos, tomar café e almoçar na rua. Temos que torná-lo confortável para andar e pedalar. Tem coisas básicas, como higiene. Ruas sujas e luz fraca dão sensação de insegurança e afastam pessoas. São intervenções simples. A Dinamarca é um país com um clima terrível, mas em Copenhague 40% das pessoas vão ao trabalho de bicicleta por que é o meio mais conveniente de locomoção. Ter um carro é muito caro. Precisamos começar a oferecer convites para que as pessoas frequentem espaços públicos. Para o transporte público você tem que fazer os mesmos convites. Por exemplo, tem que fazer o ônibus parar melhor, os pontos precisam ser seguros; os ônibus devem oferecer assentos confortáveis, wi-fi, talvez um carregador de celulares para começar a mudar a cultura.

Me fale sobre seu projeto no Anhangabaú.
Geralmente as prefeituras trabalham com departamentos separados, de transporte, construções e parques. Estamos introduzindo novos métodos de trabalho em conjunto. Fazemos apresentações e workshops. Encontramos maneiras de criar um programa para o espaço público. Antes de mandar alguém desenhar um espaço, temos que saber o que queremos dele. Estamos introduzindo métodos de saber quem usa o espaço, contando as pessoas, vendo o que elas fazem.

Descobrimos que o Anhangabaú é um espaço masculino, há muito mais homens que mulheres. Em qualquer situação as mulheres têm uma influência civilizatória. Qualquer espaço público deve ser mais equilibrado, com homens e mulheres, velhos e jovens, ricos e pobres. Precisamos olhar para o espaço e ver como as pessoas usam e como poderiam usar. O Anhangabaú poderia ter muito mais cafés e sombras. Temos que estudar, fazer um programa para a cidade e para a esse espaço.

Como foi seu trabalho em Mar Del Plata?
Fizemos um escritório “pop-up”. Nossos arquitetos ficaram em Mar Del Plata por alguns meses antes de começarmos. Fizemos pesquisas para estudar o que acontece. Criamos projetos pilotos temporários. Não fizemos obras nas ruas no primeiro momento. Colocamos mobília temporária para testar se funciona e pinturas. Fizemos o mesmo em NY na Times Square com espaços temporários. Damos uma prova do que pode ser o espaço antes para ver se as pessoas gostam e usam.

O que você acha sobre nossa relação com os rios em São Paulo?
O rio foi o responsável pela maior mudança em Copenhague. A água foi limpa em um processo longo. Agora o rio é bom para nadar. Aqui o acesso à água é limitado. Temos que dar a chance das pessoas verem a água, tocarem nela. São Paulo é árida, as pessoas sentem falta da água. Ela causa reflexões, refresca, há vida nela, é muito atrativa. Fazer o mesmo aqui é meu projeto dos sonhos.
 

Projeto temporário de uso do espaço público da Gehl Architects em Copenhague. (Foto: Gehl Architects)

 

Postado por Jorge Espeschit em 29/09/2013

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