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Direito à Cidade

Experiência inédita mapeia as principais tendências urbanísticas



Berlim:Mostra traz resultados da experiência do Guggenheim LabFoto: Divulgação

Berlim: Mostra traz resultados da experiência do Guggenheim LabDIVULGAÇÃO

RIO - Toda grande cidade cultiva, entre seus prédios, ruas e muros, uma soma de anseios e opiniões sobre a sua própria forma de se organizar. Embora muitas vezes imperceptíveis, elas apontam tendências do que serão os grandes centros no futuro. Mapear e representar esta evolução foi o grande desafio da exposição “Participatory city” (“Cidade participativa”), realizada pelo museu Guggenheim, e inaugurada no mês passado em Nova York, Berlim e Mumbai.

Idealizada pelo Guggenheim Lab, espaço para debater a dinâmica dos espaços urbanos, o projeto mergulhou dois anos no cotidiano destas metrópoles. Explorou a forma como lidam com sua arquitetura, arte, design, tecnologia, educação, sustentabilidade e disposição urbana. Desta experiência, extraiu o que poderíamos chamar de “raio x de uma cidade”: uma lista de cem tendências e pensamentos apresentados, na mostra, em forma de arte multimídia. Ela indica que cada vez mais a população fará a diferença no futuro. São os próprios moradores que promoverão mudanças — e, para isso, precisam de canais mais diretos para interferirem nas decisões.

- Por muito tempo se discutiu cidades pensando apenas em termos de engenharia e obras. Queremos saber o que uma cidade significa quando você acorda de manhã. E aí torna-se muito mais sobre pessoas - explica a curadora Maria Nicanor, especializada em arquitetura e urbanismo, e uma das principais mentes por trás do mapeamento.

Chamada de “100 trending topics”, a lista traz tendências que podem soar utópicas ou abstratas, mas há também exemplos concretos, que já começam a se impor nas ligações entre população e governos. O Rio não foi selecionado pelo Guggenheim para sediar a exposição. Tendo em vista que, como conclui a própria instituição, há aspectos em comum entre as cidades estudadas, mesmo sendo elas tão diferentes entre si, a Revista Amanhã faz aqui uma aproximação à vida carioca de alguns conceitos trabalhados no laboratório.

 

Hackeando a cidade

Segundo o conceito criado pela socióloga Saskia Sassen para o Guggenhein Lab, hackear a cidade é transformar seu sistema por meio de ações informais dos cidadãos. O modelo seria uma contraposição às ditas “cidades inteligentes”, em que máquinas tomariam conta de todos os ambientes. Seria sim um urbanismo de “código aberto”, ou seja, em que qualquer um pode interferir, de forma constante, para mudar a estrutura da cidade. O secretário municipal da Casa Civil, Pedro Paulo Carvalho, admite que nem sempre a cidade está preparada para receber projetos espontâneos dos cidadãos. Caso alguém decida fazer uma intervenção artística no meio de uma praça, é bem capaz que um guarda municipal o interrompa dizendo que a ação é irregular por não ter autorização.

- Assim como todos nós, estes servidores estão aprendendo. Os cidadãos estão tendo que ser mais pacientes.

Carvalho questiona, no entanto, a legitimidade de uma ação completamente espontânea, já que as pessoas que estão interferindo na cidade não necessariamente refletem o desejo de todos.

- Temos que ficar de olho no limite disso. Não pode, por exemplo, ser um painel (de grafite) gigantesco.

Para ele, o projeto Rio Mais, articulado pela Benfeitoria e patrocinada pela prefeitura, pode ser visto como uma forma de os cidadãos “hackearem a cidade” – com regras bem definidas, claro. A ideia da plataforma Rio Mais é que os participantes, que podem ser qualquer pessoa, digam um problema e formulem, eles mesmos, a sua solução. Depois, uma comissão do Rio Mais escolherá os melhores projetos e os colocará para votação. A prefeitura patrocinará um protótipo que, caso funcione, pode ser implementado na cidade. Mas há limitações, como, por exemplo, o orçamento máximo de R$ 100 mil para que o projeto possa se tornar um protótipo.

A convocação por ideias já foi encerrada e as sugestões estão agora sendo analisadas por especialistas.

 

Design inclusivo

Cada vez mais, o design passa a ser pensando como uma ferramenta para promover a inclusão. Em uma população diversificada como a do mundo de hoje, as cidades precisam garantir que os ambientes e serviços permaneçam igualmente acessíveis a todos, independentemente da idade, cultura ou condição social.

Conhecido por seus contrastes, o Rio pode encontrar no design uma ferramenta de transformação social - especialmente neste momento de grandes obras para a Copa do Mundo e Olimpíadas. Ainda em 2013, deverá ser reaberta a Biblioteca Pública do Estado, na Presidente Vargas, que a partir de agora será matriz da rede de Bibliotecas Parque, espaço cultural que o governo do estado está implantando em algumas comunidades, como Manguinhos e Rocinha (estas já em funcionamento). Segundo a Secretária de Cultura Adriana Rattes, a ideia é que as construções respeitem a identidade em que estão localizadas, fazendo com que os moradores e frequentadores se sintam incluídos nas mudanças de seu bairro.

- A questão não é uma construção ser luxuosa ou feia. Ela não pode é ser estranha à vida das pessoas que a frequentam. E o design faz parte de uma estratégia de inclusão - avalia Adriana. - O papel do design e da arquitetura é fazer com que a vida das pessoas seja mais funcional, entender a cultura e traduzir os os espaços de forma adequada. É a mesma coisa quando, na reforma do Theatro Municipal , transformamos um antigo espaço para estacionamento em um boulevard na Treze de Maio, ou quando decidimos colocar o Museu da Imagem e do Som, que é síntese da cultura carioca, na Avenida Atlântica.

 

Departamento de escuta

É uma instituição utópica que tornaria o ato de reclamar muito mais prático e menos penoso. Seria algo como um 1746 perfeito, em que o governo ouviria nossos anseios com sinceridade e atenção. No lugar daquele atendente estilo telemarketing, que, apenas com um script em mãos, muitas vezes nos frustra, estaria alguém preparado para nos responder no ato, sem parecer seguir um protocolo. Segundo o Guggenheim Lab, o uso da tecnologia pode tornar esse departamento utópico cada vez mais possível. E este é o desejo da prefeitura, segundo o secretário municipal da Casa Civil, e idealizador do 1746, Pedro Paulo Carvalho. Segundo ele, a prefeitura se utiliza de diversas ferramentas para estabelecer uma ponte entre os cidadãos e o governo.

- O método clássico é o de visitar as pessoas. Há o intermediado, via Câmara dos Vereadores, o sistema representativo. E o novo, via tecnologias. No 1746, temos uma lista de 1,7 mil scripts, com prazo para cada um deles.

O secretário explica que, hoje, o 1746 está em sua primeira geração, cujo objetivo era medir sua eficiência, de acordo com o que é oferecido. No futuro, numa segunda geração, a prefeitura planeja integrar o canal ao Facebook e Twitter, para que os cidadãos possam interagir - a ideia deve ser lançada em janeiro. Com essa plataforma, ele explica, será possível discutir grandes projetos e hierarquizar prioridades em âmbitos específicos.

- Posso facilmente, por exemplo, perguntar para o Morro da Providência se eles querem uma Clínica da Família, ou se eles querem uma Nave do Conhecimento.

 

Democracia cotidiana

Uma democracia pode ir muito além de um sistema eleitoral tradicional. É o que diversos grupos e associações no mundo inteiro têm tentado colocar em prática, estendendo as decisões da cidade a uma série de outras dimensões sociais. A ideia é fazer com que todos os ambientes de nossas vidas funcionem de forma democrática: trabalho, educação, serviços públicos e outros. Uma das pioneiras neste sentido é a organização americana Everyday Democracy, que adapta ideias e ferramentas para atender às necessidades particulares de cada comunidade. No Brasil, a prática ainda é incipiente e as decisões continuam concentradas.

- Deve haver uma participação mais balanceada entre as decisões técnicas e políticas - avalia o arquiteto Pedro Rivera, Diretor do Studio-X Rio, que faz parte de uma rede global de laboratórios da Universidade de Columbia (EUA) para pensar o futuro das cidades. - A sociedade precisa escolher qual linha de metrô ela quer, qual praça precisa receber mais atenção, quais investimentos precisam ser priorizados. E este processo se dá com novos fóruns locais, que estabeleçam canais de negociação com os moradores e as associações comerciais.

Coordenadora executiva do Rio Como Vamos, uma associação de acompanhamento de políticas públicas, Thereza Lobo acredita que, para intensificar a democracia participativa na cidade, deve-se apostar na disseminação da informação, com dados menos gerais. Os indicadores precisam contemplar as diferentes realidades das comunidades, que poderiam ser vistas como microcidades. Também há necessidade de mais e melhores espaços e fóruns de discussão sobre as políticas públicas.

- Já há uma variedade grande de conselhos: de educação, de saúde, de desenvolvimento urbano... Mas, em alguns casos, estes são reféns de interesses corporativos,

político-partidários ou mesmo privados. Com isso perde-se a possibilidade de aproveitar esse importante mecanismo de controle social - opina.

 

Dados urbanos

O mundo digital trouxe novas ferramentas para medir a informação produzida pelas cidades e transformá-la em fatos, figuras e visualizações. A quantidade de dados coletados entre os primórdios da humanidade e 2003 equivale, atualmente, ao que se coleta a cada dois dias. Mas o volume maciço de dados por si só não torna uma cidade mais inteligente. É preciso criar mecanismos capazes de filtrar esta riqueza de informação e torná-la acessível a todos. Com estimativas mais precisas e transparentes, há mais espaço para ações independentes.

— O desafio é integrar o fluxo de informação através de plataformas digitais abertas onde o cidadão possa inserir, pesquisar dados e cruzar informações que o ajudem a resolver problemas do cotidiano — opina Rodrigo Nogueira, sócio-diretor da Martinica Digital, uma agência de marketing e mobilização digital. — Investigar a inteligência social das multidões é reconhecer suas individualidades para além de números e traduzir anseios em serviços.

A webcidadania ganha força no mundo através de petições online, financiamentos colaborativos ou plataformas para acompanhar gastos públicos. No Rio, há exemplos de sites que promovem o monitoramento legislativo (www.votenaweb.com.br), a pressão pública (www.meurio.org.br) e a promoção de ideias criativas para resolver problemas da cidade (riomais.benfeitoria.com). Nogueira cita uma parceria ainda em andamento da sua agência com o governo do Estado, que oferece uma plataforma aberta de georreferenciamento (ato de tornar suas coordenadas conhecidas num dado sistema de referência), voltada para as comunidades e focada no mapeamento de agentes culturais e no desenvolvimento da economia criativa.

- A ideia é estimular iniciativas em parcerias com empreendedores, produtores culturais locais e moradores que já desenvolvem ações dentro de suas próprias regiões - explica.

 

Reclamação e cobrança

Como conceitua o laboratório, “reclamar é o ato de dar voz às preocupações ou queixas pessoais de alguém em um espaço público”. Se tradicionalmente esta seria uma falta brasileira pelo estado normal de indiferença com que a sociedade normalmente lida com os absurdos que nos cercam, desde junho talvez tenha se tornado um dos temas sobre os quais mais se conversa na cidade. Segundo o antropólogo Roberto Damatta, por mais que o ato de reclamar seja essencial à democracia, no Brasil quem reclama não é normalmente bem aceito pela sociedade.

- A gente sempre associa a reclamação a uma irritação, um transbordamento. O reclamão é indesejável, individualista, criador de caso - explica, citando como exemplo o ditado “os incomodados que se mudem”.

DaMatta diferencia a reclamação do americano da do brasileiro. Segundo ele, entre os nossos vizinhos de cima, é comum reclamar e, por isso, há a reclamação de prevenção, aquela que é feita com calma, como alerta. Já por aqui, “somos ensinados a não reclamar desde criança”, como define DaMatta. E quando enfim decidimos reclamar já estamos em tal estado de descontentamento que explodimos.

- Nós nos exaltamos, porque temos a percepção que, se reclamarmos com calma, o outro vai achar que é porque (o problema) não estava nos incomodando tanto assim - explica o antropólogo, para quem os protestos de hoje mostram que o Brasil está, finalmente, aprendendo a reclamar.

Para Carlos Thadeu de Oliveira, gerente-técnico do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), faltam canais eficientes e transparentes para que o brasileiro reclame, assim como mais ferramentas de democracia direta.

- Hoje, não bastam as instituições democráticas que a gente já conhece, que estão mal implementadas - explica Oliveira. - Mas, quando se fala de reclamação direta, ou democracia direta, isso não é muito agradável ao status quo, ou a ninguém da classe política.

 

Outras tendências

Patrocínio corporativo: Em troca do reconhecimento de suas marcas, empresas podem muitas vezes financiar indivíduos, projetos e instituições. Segundo ressalta o Guggenheim Lab – ele próprio beneficiado por um patrocínio, da BMW –, hoje, sem a ajuda de empresas, muitas iniciativas e projetos nunca iriam à frente devido ao encolhimento gradual da atuação de governos.

Cultura de compartilhamento: O conceito é antigo, mas graças às novidades tecnológicas dos últimos anos ganhou possibilidades sem precedentes. Através de sites, interfaces e mídias sociais, há mais alternativas para a troca monetária, tanto online como offline. É mais comum em transporte, itens de uso freqüente e espaços físicos. Prosperando para o peer-to-peer (formato de rede de computadores em que cada usuário conectado acaba por realizar funções de servidor e de cliente ao mesmo tempo), também deve ser considerada no planejamento da cidade, a ser implementada em larga escala em compartilhamento de carros, bicicletas e outros recursos coletivos.

Jogos urbanos: Usam a cidade como um parque infantil e têm como objetivo trazer experiências normalmente praticadas em ambientes fechados para a rua. São experimentais e promovem a interação social no cenário da vida real. Eles podem tomar a forma analógica de um jogo de tabuleiro urbano em escala humana.

Desaceleramento: A maior parte das filosofias de planejamento urbano geralmente se concentra em soluções para movimentar pessoas e veículos da forma mais rápida possível. Mas há correntes que pregam que algumas partes das metrópoles devem funcionar de forma mais lenta e agradável, com maneiras experimentais de se movimentar e estar na cidade. Imagine a Avenida Atlântica do Rio sem uma pista rápida com carros e ônibus passando a toda velocidade.

Mapeamento do lixo: Estratégia que rastreia o percurso dos resíduos para saber mais sobre as consequências do consumo ou para incentivar uma melhoria do saneamento. Desta forma, pode revelar que uma quantidade significativa de resíduos industriais e domésticos está disposta em lugares muito distantes do seu local de origem de utilização, ajudando a otimizar a coleta.

Lealdade bairrista: É o senso de lealdade que cada indivíduo tem com seu bairro. Pode ser uma ferramenta poderosa para efetuar a mudança coletiva e aglutinar uma comunidade de forma autêntica. Permanecendo fiel às necessidades de seus ambientes locais, também pode permitir aos moradores se preservarem contra ameaças de gentrificação.

Arquitetura não icônica: É uma reação à proliferação da arquitetura icônica do final do século XX, relacionada à globalização, ao consumismo, e ao status de celebridade dos arquitetos que constroem estruturas espetaculares. A arquitetura não icônica, por sua vez, valoriza a dimensão humana de um espaço sobre o seu valor meramente escultural, e defende a importância da simplicidade e funcionalidade do design.

Hortas e jardins comunitários: Podem fornecer um certo grau de independência aos moradores ao ajudá-los a cultivar seu próprio alimento. Os jardins produzem um sentimento de cuidado pela parte de uma propriedade coletiva.

Neo-localismo: São ações diretas para apoiar economias locais, apesar do aumento da influência global. Pode ser uma ferramenta importante para proteger negócios locais de grandes corporações.



Leia mais sobre esse assunto em 
http://oglobo.globo.com/ciencia/revista-amanha/experiencia-inedita-mapeia-as-principais-tendencias-urbanisticas-10747778#ixzz2kU15eYAk 

Postado por Jorge Espeschit em 12/11/2013

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